sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Bio não tão biocombustível!

Por José Luís Félix*

A humanidade sempre procurou o desenvolvimento e com ele uma melhor qualidade de vida. As invenções serviram para facilitar o trabalho e reservar mais horas de lazer. Embora se tenha atingido um nível relativamente alto de conhecimento teórico e prático, esta evolução trouxe também muitas consequências negativas.

Quando o alemão Carl Benz inaugurou seu veículo motorizado, em 1885, a gasolina era comprada na farmácia e todos ficaram eufóricos. Esta alegria dura até hoje, quando se observa que, para muitos, o carro é o maior sonho de consumo. Ninguém poderia imaginar, entretanto, o que isto significaria para o planeta. Só agora, quando se compra gasolina em qualquer esquina, perto da escola ou do supermercado, quando a média de carros por pessoas beira o absurdo de 2,5, quando o aquecimento global é um facto, quando as catástrofes ambientais, em forma de tornados, enchentes, calor excessivo ou secas duradouras na Amazónia, estão estampadas em todos os meios jornalísticos do mundo, o homem começa a perceber o preço do prazer de andar de carro. Carl Benz teria vergonha de seu invento?

O facto é que o carro existe e foi feito para andar. Continua sendo o sonho de consumo da maioria das pessoas. É um luxo que se populariza e segue, no mundo inteiro, queimando as reservas de combustíveis fósseis, contribuindo para o aquecimento do planeta e para o esgotamento de uma forma de energia antes pensada como infinita. Neste ritmo de desenvolvimento, o ser humano precisa de outras matrizes energéticas e os biocombustíveis ressurgem como panacéia.

No entanto, basta um olhar mais atento para descobrir que esta solução traz enormes consequências para a humanidade. A tentativa de substituir o combustível fóssil por alternativas renováveis trouxe problemas cruciais, como, por exemplo, a necessidade de proteger o solo, a água, a biodiversidade e a própria humanidade. Inaugurou-se de vez a polémica mundial: produzir biocombustível ou alimentos?

Embora não haja dúvida quanto à necessidade de produzir alimentos, pois ainda há muita gente a passar fome, produzir combustíveis alternativos ganhou simpatia no mundo todo. No Brasil, há décadas se anda de carro a álcool e esta opção, aparentemente menos agressiva ao meio ambiente, causa inveja em muitos países. Mas desde o recente fomento do governo brasileiro para produção de biocombustíveis (álcool, biodiesel e derivados), o tema ganhou debate internacional e foi fortemente criticado como sendo um dos responsáveis pela alta mundial no preço dos alimentos.

A crise mundial pela falta de alimentos não é recente. Também não é de hoje a produção de biocombustíveis. O facto de países emergentes receberem grandes investimentos em produção de álcool não altera substancialmente a crise. Vai continuar faltando mais e mais alimentos, assim como mais e mais combustíveis. As reservas fósseis estão no limite. Quase não há mais rios para hidrelétricas. Energia nuclear tornou-se a maior aberração da humanidade. Então, que os países emergentes produzam mais biocombustíveis, afinal têm extensas áreas e isto não afecta a produção de alimentos diretamente.

Pior do que trocar alimentos por biocombustíveis é a maneira como se produz esta nova matriz energética. No Brasil, o Estado de São Paulo, o mais rico da nação, orgulha-se de sua "diversidade agrícola": praticamente um imenso canavial, pois outras culturas quase não existem mais e, quando existem, ainda assim são monoculturas de laranja e eucalipto. Extensas áreas de produção de trigo, soja e milho de outrora são engolidas pelos canaviais. As poucas árvores que resistiram de uma floresta nativa são removidas, soterradas ou queimadas. Planta-se cana de açúcar geneticamente modificada, jogam-se resíduos industriais na terra, aplicam-se pesticidas poderosos com consequências desastrosas para o meio ambiente. Para facilitar a colheita, ainda que proibido pela legislação ambiental, coloca-se fogo em volta da plantação, impedindo que qualquer tipo de vida sobreviva. Bichos em extinção como onças, tatus e tamanduás morrem queimados. Os canaviais sob fogo intenso, dia e noite. Ultimamente, só à noite, quando todos estão fechados em suas casas. Na manhã seguinte, as imensas nuvens de fumaça já se dispersaram com o vento e tem-se a impressão de ar puro novamente. Então chegam os trabalhadores rurais para o corte da cana. Tentam se proteger de todo modo, pois a folha da cana e o facão podem causar graves ferimentos. Ao final do dia, estão sujos, cheios de carvão, exaustos e respiraram cinza o dia inteiro.

O método de produção do biocombustível é ainda pouco conhecido nos seus detalhes, mas inegavelmente tão prejudicial ao meio ambiente quanto a emissão dos gases poluentes dos derivados do petróleo. Biocombustível somado à necessidade de crescimento económico a qualquer custo, apoiado pelo capital internacional especulativo, não parece tão BIO assim.
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* José Luís Félix é Doutor em Letras pela USP e Professor de Alemão do Departamento de Letras Modernas da FCL/As/UNESP

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